A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, trouxe em setembro de 2026 um retrato ambíguo. O endividamento caiu para 81,7% das famílias — a primeira queda do ano — e a inadimplência recuou para 29,6%, o menor nível desde março. A leitura apressada seria comemorar. A leitura operacional é outra.
A mesma pesquisa mostra que o tempo médio de atraso subiu para 65,3 dias, o maior desde novembro de 2024, e o comprometimento da renda com dívidas avançou para 29,6%. Ou seja: menos gente entrou na inadimplência, mas quem já está nela está atrasando por mais tempo e comprometendo mais renda.
Há ainda um número que costuma passar batido e que deveria orientar a régua de cobrança. Pelos dados da Peic divulgados pela CNC, 12,5% das famílias se declaram inadimplentes sem condições de quitar a dívida. São pessoas que não responderam "não" à cobrança: responderam "não tenho como". Esse é um público diferente, e tratá-lo com a mesma régua dos demais é o caminho mais rápido para queimar canal, cadeira de atendente e, por fim, a própria dívida.
Por que 12,5% não cabem na régua padrão
A régua de cobrança tradicional pressupõe intenção de pagamento associada a alguma capacidade financeira: o devedor quer quitar, só precisa de motivo ou de facilidade. Para o grupo que declara não ter condições, a lógica é outra. O problema não é vontade, é orçamento.
Insistir no canal errado, com a mesma cadência, costuma produzir três efeitos ruins ao mesmo tempo. O devedor bloqueia o número. O time humano queima tempo em conversas sem saída. E o indicador de recuperação da carteira piora mesmo com mais contato enviado — o custo sobe, o resultado não.
Antes de aumentar o volume de cobrança, vale olhar para o percentual da carteira que já declarou não ter condições de pagar. Cobrar mais forte esse grupo raramente melhora a recuperação; quase sempre melhora apenas o desgaste.
O que fazer diferente na operação
1. Marcar a carteira "sem condição" como segmento próprio
O primeiro passo é deixar de tratar esse grupo como inadimplente genérico. O devedor que informa não ter como quitar deve sair da fila de cobrança ativa e entrar em um funil próprio, de menor cadência e de horizonte mais longo. Na prática, é criar um status no CRM que dispare uma jornada diferente, e não apenas um atraso diferente.
2. Trocar pressão por alternativa de fluxo
Para quem não tem o valor total nem a parcela padrão, a oferta que faz sentido é a de entrada menor, data de pagamento no mês seguinte ao recebimento do salário ou parcelas ajustáveis — desde que essa flexibilidade esteja prevista na política de negociação e caiba na alçada de aprovação. Um acordo que o devedor não consegue honrar não é acordo: é um novo atraso com roupa nova.
3. Trocar insistência por informação
Numa carteira desse tipo, comunicação informativa rende mais que comunicação de pressão. Informar saldo, apontar os canais de autoatendimento e deixar claro que a negociação continua disponível quando o orçamento melhorar gera menos desgaste do que "regularize seu débito" enviado em cadência alta.
4. Ler o atraso médio de 65,3 dias junto com o resto
Atraso médio em alta é sinal de envelhecimento de carteira, e carteira velha custa mais por real recuperado. Se o tempo de atraso cresce enquanto a inadimplência cai, o problema deixa de ser quem entrou na dívida e passa a ser quem já estava nela. Isso muda o alvo do esforço: menos aquisição de casos e mais reativação daqueles que estão no funil há mais tempo.
O que a automação resolve — e o que não resolve
Orquestração de canais e automação de régua resolvem bem a parte mecânica: cada segmento recebe a cadência certa, no canal certo, sem redundância, e a fila de atendimento humano recebe apenas os casos que exigem negociação de verdade.
O que a automação não faz é decidir a política de flexibilização. Se a régua não tem alternativa de fluxo cadastrada — e se o time não tem alçada para concedê-la —, nenhum fluxo digital vai transformar um devedor sem condições em pagador.
A Salt Systems organiza a régua de contato, o orquestrador de canais e a leitura de carteira em um mesmo lugar, justamente para que a distinção entre "não paga" e "não tem como pagar" apareça no dado e mude a jornada. Com 12,5% das famílias declarando não ter condições de quitar, essa distinção deixou de ser refinamento: virou parte do básico da operação de cobrança.
Fontes
- CNC — Portal do Comércio: "CNC: inadimplência e endividamento das famílias brasileiras recuam em setembro" (81,7% de endividamento, 29,6% de inadimplência, tempo de atraso em alta): https://portaldocomercio.org.br/acoes-institucionais/cnc-inadimplencia-e-endividamento-das-familias-brasileiras-recuam-em-setembro
- Valor Econômico: "Inadimplência e endividamento das famílias recuam em setembro, diz CNC" (12,5% sem condições de quitar; comparação com setembro de 2025): https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/10/08/inadimplencia-e-endividamento-das-familias-recuam-em-setembro-diz-cnc.ghtml
- Folha de S.Paulo: "Inadimplência cai em setembro; tempo médio de atraso sobe" (65,3 dias de atraso médio; comprometimento da renda em 29,6%): https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/inadimplencia-cai-em-setembro-mas-familias-comprometem-mais-renda-com-dividas.shtml
- G1: "Endividamento das famílias cai; inadimplência sobe na alta renda" (expectativa da CNC de fechar o ano em torno de 81,5%): https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/10/08/inadimplencia-pesquisa-renda-cnc.ghtml
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